Pesquisar

Do futebol à política: como até o ‘pé direito’ virou motivo de guerra ideológica no Brasil

Do futebol à política: como até o ‘pé direito’ virou motivo de guerra ideológica no Brasil

Campanha publicitária

Do futebol à política: como até o ‘pé direito’ virou motivo de guerra ideológica no Brasil

Peça publicitária com Fernanda Torres é acusada de viés político, apesar de histórico da marca com campanhas semelhantes sem conotação ideológica

Uma campanha publicitária de fim de ano da Havaianas, lançada em dezembro de 2025 e estrelada pela atriz Fernanda Torres, acabou se tornando centro de uma polêmica que extrapolou o marketing e entrou no campo da disputa política. O motivo foi um trecho do texto do comercial que brinca com a expressão “pé direito”, tradicionalmente associada à sorte.

Na peça, a narradora diz: “Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: a sorte não depende de você. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, na estrada, na jaca… onde você quiser.”

A mensagem, pensada como um jogo de palavras para incentivar atitude e movimento, foi interpretada por grupos políticos como uma provocação ideológica. Dois fatores contribuíram para a repercussão: a menção direta ao ano de 2026, quando ocorrerão as eleições presidenciais, e o uso da expressão “pé direito”, que críticos ligados à direita associaram simbolicamente a um posicionamento político contrário ao campo conservador.

A reação nas redes sociais foi imediata. Surgiram campanhas de boicote à marca, como a hashtag “Havaianas Nunca Mais”, acompanhadas de vídeos de consumidores descartando produtos. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também entrou no debate ao publicar um vídeo em tom irônico, afirmando que, em seu estado, o ano começaria “com o pé direito”, usando obras do Rodoanel como pano de fundo.

O impacto chegou ao mercado financeiro: ações da Alpargatas, empresa dona da Havaianas, chegaram a registrar queda após o início da onda de críticas.

O episódio chama atenção por contrastar com campanhas antigas da própria marca. Em 2014, durante a Copa do Mundo no Brasil, a Havaianas lançou um comercial estrelado por Romário, que explorava a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina. No vídeo, o ex-jogador aparecia usando apenas o chinelo do pé direito e enviava o esquerdo para Diego Maradona, com a frase: “Havaianas, o pé direito é nosso.”

Na época, a campanha foi vista como uma provocação esportiva leve, baseada em humor e superstição futebolística, sem qualquer leitura política. Curiosamente, a atriz Fernanda Torres também participou daquela ação publicitária, reforçando o paralelo entre os dois momentos.

A comparação evidencia como o contexto social mudou. Expressões antes associadas apenas ao esporte, à sorte ou ao humor passaram a ser reinterpretadas sob lentes ideológicas. O caso da Havaianas não é isolado, mas exemplifica como, em um ambiente de forte polarização, peças de comunicação acabam sendo absorvidas pela disputa política, muitas vezes além da intenção original de marcas e criadores.

Receba as notícias do Nativa News no seu WhatsApp.

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Imprimir

Comentários