A dor começa na lombar e desce pela nádega até a perna. Às vezes chega ao pé. Em alguns casos aparece como queimação, em outros como dormência ou um formigamento que não cede.
O paciente toma um anti-inflamatório, sente alívio por alguns dias e volta ao trabalho. Semanas depois, a crise retorna mais forte. É um ciclo que milhões de brasileiros conhecem, mas que poucos interrompem no momento certo.
A dor ciática, ou ciatalgia, é o sintoma mais característico de compressão do nervo ciático, o maior do corpo humano. Ele se forma a partir das raízes nervosas das últimas vértebras lombares e das primeiras sacrais, percorre a parte posterior da coxa e da perna e se ramifica até o pé.
Quando algo pressiona essas raízes, seja uma hérnia de disco, uma estenose do canal vertebral ou o estreitamento do forame por onde o nervo sai da coluna, a dor irradia pelo trajeto inteiro.
No Brasil, as doenças de coluna estão entre as condições crônicas mais prevalentes. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, conduzida pelo IBGE, revelou que 21,1% dos adultos relataram algum problema crônico de coluna, incluindo lombalgia, ciática e alterações em vértebras ou discos.
Em números absolutos, são mais de 19 mil participantes dentro de uma amostra de 90 mil pessoas que referiram conviver com essas queixas. A prevalência ao longo da vida para a dor ciática, conforme diferentes estudos internacionais, pode chegar a 43% da população.
Por que a dor ciática não é “só dor nas costas”
A confusão entre lombalgia simples e ciática é comum e tem consequências práticas. A lombalgia pura se concentra na região inferior da coluna e, na maioria dos casos, melhora com repouso relativo, ajuste postural e fortalecimento muscular.
A ciática, por outro lado, sinaliza que há compressão ou irritação de uma raiz nervosa. A dor que desce pela perna é o sinal mais evidente, mas existem outros que merecem atenção: perda de força no pé ou nos dedos, dificuldade para levantar a ponta do pé ao caminhar, dormência persistente na panturrilha e, em casos graves, alterações no controle da bexiga ou do intestino.
O nervo ciático é formado principalmente pelas raízes de L4, L5, S1, S2 e S3. A compressão mais frequente acontece nos níveis L4-L5 e L5-S1, justamente a região da coluna que suporta maior carga mecânica.
E é nessa região que a maioria das hérnias de disco se instala. Dados clínicos indicam que a hérnia discal lombar acomete de 2% a 3% da população geral, com maior incidência entre os 30 e os 50 anos. É a principal causa de ciática em adultos.
“O ponto que diferencia um episódio passageiro de um problema que precisa de investigação é a persistência. Se a dor irradia para a perna por mais de seis semanas, se vem acompanhada de perda de sensibilidade ou fraqueza muscular, ou se não responde a analgésicos e anti-inflamatórios, o caminho natural é a avaliação por um especialista em coluna, com exame físico detalhado e ressonância magnética da região lombar”, informa Dr. Aurélio Arantes, médico de coluna em Goiânia.
O que funciona antes da cirurgia
A boa notícia é que a maioria dos casos de ciática não precisa de cirurgia. Estudos indicam que entre 80% e 90% dos pacientes melhoram com tratamento conservador ao longo de 6 a 12 semanas.
A história natural da hérnia de disco é de resolução espontânea na maior parte dos casos: o próprio organismo reabsorve parte do material herniado, a inflamação diminui e o nervo recupera sua função.
O tratamento conservador inclui medicação para controle da dor na fase aguda, fisioterapia com exercícios de fortalecimento da musculatura lombar e abdominal, e orientação postural.
Em casos de dor mais intensa, infiltrações epidurais com corticosteroides guiadas por fluoroscopia podem reduzir a inflamação na raiz nervosa e permitir que o paciente inicie a reabilitação. Estudos apontam que esse tipo de infiltração alcança controle satisfatório da dor em até 83% dos pacientes tratados.
O que o tratamento conservador exige, no entanto, é acompanhamento. Não basta tomar o remédio por conta própria e esperar. O paciente precisa de orientação sobre quais movimentos evitar na fase aguda, quando iniciar a fisioterapia e como progredir os exercícios sem agravar o quadro. E é justamente nesse ponto que quem mora no interior enfrenta o maior obstáculo.
A realidade de quem mora longe do especialista
No norte de Mato Grosso, a economia gira em torno do agronegócio, da pecuária e da agroindústria. São atividades que exigem esforço físico repetitivo, jornadas longas e, em muitos casos, transporte de cargas pesadas.
Dados da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional mostram que, entre 2008 e 2017, 70% dos acidentes de trabalho registrados em Mato Grosso estavam ligados ao setor agropecuário. A lombalgia e a ciática são queixas frequentes entre trabalhadores do campo, de frigoríficos e de operação de máquinas.
O problema é que municípios como Alta Floresta, Sinop ou Sorriso ficam a centenas de quilômetros dos centros de referência em ortopedia e cirurgia de coluna.
Cuiabá concentra a maioria dos especialistas do estado, mas está a mais de 800 quilômetros de muitas cidades do norte. O encaminhamento pelo sistema público pode demorar meses. No setor privado, a oferta de profissionais com formação específica em coluna é restrita.
O resultado dessa distância aparece nos consultórios de referência em forma de quadros mais avançados. O paciente que poderia ter sido tratado com fisioterapia e infiltração chega com uma hérnia extrusa comprimindo a raiz nervosa, com perda de força na perna e meses de dor acumulada. O que seria um tratamento conservador de semanas se transforma em uma indicação cirúrgica.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que as dores na coluna lideraram os afastamentos do trabalho no Brasil em 2025, com 237 mil concessões de benefício por dorsalgia, dentro de um total de 4,1 milhões de benefícios por incapacidade.
Quando o tratamento conservador não resolve
A cirurgia de coluna é indicada em duas situações principais: quando o paciente apresenta déficit neurológico progressivo, como perda de força nas pernas ou alteração no controle dos esfíncteres, e quando a dor persiste de forma incapacitante após 6 a 12 semanas de tratamento adequado. Uma terceira situação, mais rara, é a síndrome da cauda equina, que constitui uma urgência médica e exige intervenção imediata.
Quem chega a esse ponto precisa entender que a cirurgia de coluna mudou de forma considerável nas últimas duas décadas. A cirurgia de coluna lombar com técnicas minimamente invasivas substituiu, em muitos casos, os procedimentos abertos que exigiam incisões extensas, descolamento muscular e semanas de internação.
Com o uso de retratores tubulares, microscópio e navegação por imagem, o cirurgião consegue acessar a região comprimida por uma incisão pequena, preservando a musculatura ao redor da coluna. O sangramento é menor, o pós-operatório é mais confortável e a internação pode durar menos de 24 horas.
Dentro das opções minimamente invasivas, uma das técnicas que mais avançou nos últimos anos é a cirurgia por vídeo. O procedimento utiliza um endoscópio com câmera de alta definição, inserido por uma incisão de 8 milímetros, que permite ao cirurgião visualizar as estruturas da coluna em um monitor e remover fragmentos de disco herniado ou ampliar o canal neural com precisão.
A recuperação é mais rápida, o retorno às atividades leves costuma ocorrer em duas a quatro semanas, e a taxa de complicações é menor quando comparada à cirurgia aberta convencional.
Para quem quer entender melhor como funciona essa técnica e acompanhar casos reais, a cirurgia endoscópica de coluna tem sido amplamente documentada por especialistas da área. A técnica é indicada para hérnias de disco lombares e cervicais que não responderam ao tratamento conservador, estenoses foraminais e algumas formas de compressão neural.
Não substitui a cirurgia aberta em todos os cenários, especialmente quando há instabilidade vertebral, espondilolistese ou deformidades que exigem fusão, mas ampliou de forma significativa o número de pacientes que podem se beneficiar de abordagens menos agressivas.
Como escolher o especialista certo
Para ortopedistas do COE, centro ortopédico localizado em Goiânia, essa talvez seja a decisão mais importante do processo inteiro, e também a que gera mais dúvida, especialmente para quem mora longe dos centros de referência.
Goiânia, por exemplo, se consolidou nos últimos anos como polo de ortopedia e cirurgia de coluna no Centro-Oeste. Dados sobre turismo de saúde em Goiás indicam que 57% dos visitantes da capital procuram a cidade por motivo de tratamento médico.
Para quem está avaliando um problema de coluna, o primeiro critério é verificar se o profissional tem formação específica em cirurgia da coluna vertebral, para além da residência em ortopedia ou neurocirurgia.
O volume de procedimentos realizados pelo profissional também conta: cirurgiões com experiência acumulada em centenas ou milhares de operações têm mais repertório para lidar com variações anatômicas e complicações eventuais.
A filiação a sociedades como a SBOT (Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia) e a SBC (Sociedade Brasileira de Coluna) é um indicador de que o médico segue padrões reconhecidos pela comunidade científica.
Outro ponto que faz diferença: buscar uma segunda opinião. Se a primeira avaliação indicou cirurgia, vale consultar outro profissional antes de tomar a decisão. Em cerca de 90% dos casos de hérnia de disco, o tratamento conservador é suficiente. A cirurgia é necessária para uma minoria, mas quando é bem indicada, os resultados são consistentes.
Pesquisar ortopedistas especialistas com formação comprovada em coluna, verificar o registro no CRM e no RQE, e buscar relatos de pacientes atendidos pelo profissional são passos que reduzem o risco de uma indicação inadequada.
O que fazer agora
Se a dor na perna persiste há semanas e não melhora com remédio, o primeiro passo é parar de adiar. O segundo é buscar um diagnóstico qualificado, com ressonância magnética e avaliação clínica feita por um médico com formação em coluna. O terceiro é seguir o tratamento indicado com regularidade, seja ele conservador ou cirúrgico.
O anti-inflamatório alivia o sintoma, mas não trata a causa. A fisioterapia funciona quando indicada no momento certo e acompanhada por profissional capacitado. E a cirurgia, quando necessária, é mais segura e menos invasiva do que era há duas décadas.
Para o trabalhador do interior de Mato Grosso, onde o corpo é ferramenta de trabalho e a distância até o especialista se mede em horas de estrada, a informação correta é o primeiro recurso acessível.
Saber quando a dor ciática precisa de investigação, quais tratamentos existem e como escolher o profissional certo pode ser a diferença entre semanas de recuperação e meses de afastamento.





