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Alta Floresta é destaque em pesquisa sobre uso tradicional de plantas medicinais

Alta Floresta é destaque em pesquisa sobre uso tradicional de plantas medicinais

Plantas medicinais

Alta Floresta é destaque em pesquisa sobre uso tradicional de plantas medicinais

Pesquisa da Univates ouviu raizeiros e 300 moradores de Alta Floresta e Carlinda (MT) para registrar 109 espécies vegetais usadas na cura de doenças, unindo conhecimento tradicional e ciência para fortalecer políticas públicas de saúde

Milenrama, Achillea millefolium - Crédito - Pablo Alberto Salguero Quiles - Wikimedia Commons 

O conhecimento tradicional sobre plantas medicinais mantido por raizeiros e moradores de Alta Floresta e Carlinda foi tema de uma pesquisa de doutorado desenvolvida pela Universidade do Vale do Taquari (Univates). Ao longo de três anos, o estudo identificou 109 espécies de plantas utilizadas com fins medicinais, revelando a forte relação entre o saber popular e a biodiversidade da Amazônia mato-grossense.

A tese foi desenvolvida pela pesquisadora Maria Ilmalucia Teixeira, no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD). A pesquisa ouviu 10 raizeiros de comunidades rurais de Alta Floresta e outros 300 moradores das áreas urbana e rural dos dois municípios.

Entre as espécies mais citadas estão assa-peixe, losna, arnica, calêndula, carqueja, guaco, boldo, erva-cidreira e barbatimão. Do total identificado, 67% são espécies nativas da região, enquanto 38 já aparecem na relação de plantas medicinais de interesse do Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo o estudo, os raizeiros atuam como importantes guardiões de um conhecimento transmitido entre gerações. Além das propriedades e formas de utilização das plantas, eles conhecem períodos de floração e frutificação e formas de coleta, mantendo uma relação próxima com a vegetação nativa.

A pesquisa também registrou uma prática regional denominada “Biodigital” ou Método Bioenergético de Tratamento Natural, conhecido como Aramim, utilizada pelos raizeiros entrevistados como parte de seus atendimentos.

Outro dado que chamou atenção foi a participação das mulheres na transmissão desse conhecimento. Elas representaram 75% dos entrevistados na área urbana e 59% na zona rural, além de relatarem, em média, conhecer mais espécies medicinais do que os homens.

Barbatimão – Stryphnodendron adstringens – Crédito – Eurico Zimbre

O levantamento apontou ainda diferenças entre moradores urbanos e rurais. Os moradores do campo citaram mais espécies por comunidade do que os moradores urbanos por bairro, embora os dois grupos apresentem conhecimentos próprios sobre o uso terapêutico da flora.

Um dos pontos de atenção levantados pela pesquisa está relacionado ao acompanhamento médico. Mais da metade dos entrevistados afirmou não informar aos profissionais de saúde que utiliza plantas medicinais. Entre os motivos estão a percepção de que não haveria riscos ou simplesmente o fato de nunca terem sido questionados sobre o assunto.

A tese ressalta, entretanto, que o uso de plantas medicinais não é necessariamente seguro em qualquer situação. A orientação adequada é importante devido à possibilidade de efeitos adversos e interações com medicamentos.

No cruzamento entre o conhecimento dos raizeiros e registros científicos de herbários, a pesquisa encontrou uma relação significativa entre a frequência com que determinadas plantas eram citadas e a quantidade de registros dessas espécies. A relação foi ainda mais forte entre as espécies nativas, indicando que os raizeiros tendem a utilizar plantas disponíveis no ambiente em que vivem.

Para a pesquisadora, o registro desse conhecimento pode contribuir para futuras pesquisas farmacológicas e fitoquímicas, além de fortalecer políticas públicas relacionadas às plantas medicinais e às práticas integrativas do SUS.

A pesquisa foi realizada em quatro comunidades rurais de Alta Floresta — Nossa Senhora de Guadalupe, Nova Alvorada, Santa Lúcia e Terra Santa — e também contemplou moradores de Alta Floresta e Carlinda. O trabalho foi orientado pelo professor doutor Eduardo Périco e teve coorientação da professora doutora Carla Kauffmann, ambos da Univates.

O estudo coloca Alta Floresta e Carlinda em evidência também no campo científico ao demonstrar que, além da riqueza ambiental, a região preserva um patrimônio de conhecimento tradicional que pode contribuir para a ciência, a saúde pública e a conservação da biodiversidade amazônica.

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