A jornalista Oziane Alves Rodrigues, de 35 anos, registrou boletim de ocorrência após ser agredida durante uma abordagem da Polícia Militar, no final da tarde dessa quarta-feira (8), na avenida das Torres, em Cuiabá. Oziane explicou que estava com a filha de nove anos no carro, quando pensou ter reconhecido o tio sendo abordado pelos militares do outro lado da via.
Ela contou que fez o contorno para acessar a pista contrária, na tentativa de identificar se era mesmo o tio dela e parou a alguns metros da viatura da PM. Assim que constatou não ser seu parente, se preparava para deixar o local, quando foi abordada por um militar identificado como Lizandro. “Foi muito rápido, questão de dois minutos, vi que não era meu tio e retornei para a pista. Quando estava retornando, o cabo Elizandro, que foi o autor de toda a agressão, me viu saindo e imagino que pensou que eu estivesse com medo da viatura.
Me pediu para parar e eu parei, pediu minha habilitação”, disse. “Olhou e disse: 'está tudo limpo, mas então vou te aplicar uma multa porque você estava percorrendo longo trecho da via em zigue-zague, aparentemente embriagada'. Falei que ele não poderia fazer isso, primeiro porque não aconteceu, segundo como ele aplicaria uma multa se estava regular, não aconteceu nada de errado?”, continuou.
Oziane, então, afirmou que iria filmar a atitude do PM para poder recorrer da multa. De acordo com ela, o militar começou a se alterar quando percebeu que estava sendo filmado. Ele chegou a apertar o pulso da jornalista para fazer com que ela soltasse o aparelho. “Ele veio para cima de mim, me agrediu.
Ele estava com minha CNH na mão, ele fechou a mão no meu celular e com a outra ele tentou forçar meu punho. Segurei com muita força o celular. Comecei a gritar por socorro, comecei a gritar para as pessoas que estavam sendo abordadas para que elas me ajudassem de alguma forma, porque o policial estava me agredindo”.
Outros militares que estavam fazendo abordagem policial na avenida se aproximaram de Oziane e de Lizandro para entender o que estava acontecendo. Conforme ela, Lizandro exigiu que ela passasse pelo teste do bafômetro e ela não se recusou.
“Para esse policial, ele falou que eu estava dirigindo em zigue-zague no meio da pista e visivelmente embriagada e que eu iria fazer o teste do bafômetro. Em nenhum momento eles falaram meus direitos ou se eu queria fazer o teste. Ele simplesmente falou que eu iria fazer, que eu estava embriagada e que iria me prender por embriaguez.
Só que eu não me recusei a fazer o teste”. Oziane explicou que os outros militares que estavam no local perceberam que ela estava muito nervosa, sendo que um deles chegou a pedir para que Lizandro não jogasse o celular da jornalista no chão.
O militar colocou o aparelho em cima da viatura, para impedir que a mulher alcançasse. Um dos PMs entregou o celular de volta à jornalista, que começou a ligar para o namorado e um advogado, na tentativa de pedir socorro. De acordo com ela, nesse momento Lizandro afirmou que daria um tiro nela. “Ele falou que eu seu não desligasse o celular, que ele iria me dar um tiro. Nessa hora, meu namorado ouviu ele falar, porque estava no viva voz. Desliguei o celular, ele desligou o aparelho. Minha filha de nove anos estava no carro, presenciou tudo isso, estava doente”. Oziane passou pelo teste do bafômetro, que não constatou uso de bebida alcoólica. Mesmo assim, Lizandro afirmou que a jornalista seria presa por desacato.
Com medo, ela enviou a localização e vídeos da abordagem para colegas de profissão. “O outro policial falou que não tinha como me prender, que não estava embriagada. Ele disse que me prenderia por desacato a autoridade, que eu estava dando showzinho e ia dar showzinho na cadeia.
Mandei minha localização em tempo real por oito horas em um grupo de jornalistas. Tive medo deles apagarem o vídeo, tive medo deles fazerem algo contra mim e minha filha”.
De acordo com Oziane, Lizandro a todo momento afirmou que ela estava dirigindo em ziguezague na avenida. Versão que a jornalista nega. Um colega jornalista que viu a mensagem foi até o Cisc para tentar ajudar Oziane, que foi fichada.
“Quando chegamos no Cisc me mandou ficar com o rosto virado para parede como uma marginal. Só que o advogado que já estava comigo não permitiu. Me levaram para outra sala, fui obrigada a tirar foto para ficar fichada.
Tive que erguer meu short para tirarem foto de uma tatuagem que cobre uma cicatriz. O policial mudou a versão dele duas vezes”. Lizandro também disse que Oziane estava dirigindo sem cinto de segurança e com fone de ouvido. No entanto, a jornalista afirma que o carro possui dispositivo de segurança que impede que o motorista dirija sem o cinto.
Para Oziane, a situação não teria acontecido da mesma forma se ela fosse um homem ou não fosse moradora da periferia de Cuiabá. “Esse tipo de policial faz com que a periferia tenha medo. Existem milhares que tratam a população da periferia como cachorros. Não tinha nada de errado com meus documentos, com meu carro ou com minha condução.
Simplesmente, por razão que desconheço, no Dia da Mulher, me agrediu, me machucou, me humilhou, humilhou minha filha, que foi exposta ao pior tipo de agressão que uma criança de nove anos poderia passar”
Veja os vídeos:





