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Pesquisadores veem ameaça de censura e desqualificação ao Inpe

Pesquisadores veem ameaça de censura e desqualificação ao Inpe

Pesquisadores veem ameaça de censura e desqualificação ao Inpe

Membros da comunidade científica veem ameaça de censura e de desqualificação ao trabalho do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) nas críticas feitas por membros do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL).

O próprio mandatário chegou a classificar de “mentirosos” os dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia, para depois recuar e admitir que a declaração foi “exagerada”.

No entanto, as declarações deixaram um clima de “guerra” entre pesquisadores do instituto e ainda membros do primeiro escalão do governo.

Desde o final do ano passado, mesmo antes da posse de Bolsonaro, membros do grupo ligado ao presidente vêm colocando em dúvida a confiabilidade dos dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia.

As primeiras críticas partiram do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que chegou a afirmar que o governo poderia contratar uma empresa privada para substituir o Inpe na medição do desmate da floresta.

O instituto coleta dados do desmatamento da Amazônia desde 1988, com reconhecimento internacional e 95% de precisão, segundo nota oficial do Inpe.

Bolsonaro também alegou que o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, poderia ter envolvimento com ONG por divulgar dados de aumento do desmatamento, o que seria “prejudicial ao país”.

Galvão reagiu e disse que as críticas de Bolsonaro foram “covardes” e “sem fundamento”, e que aguarda sem chamado a Brasília e ouvir de Bolsonaro, “frente a frente”, as críticas feitas pela imprensa.

Com o clima tenso, pesquisadores do instituto acreditam numa tentativa de censura e de desqualificar os dados do Inpe para substituir o instituto na medição do desmatamento.

“O ministro e o presidente não compreendem os dados, que são públicos. Não tem nenhuma razão para ter essa situação. Tentar colocar algum tipo de censura ao Inpe”, disse Antonio Miguel Vieira Monteiro, pesquisador do Inpe da área de Processamento de Imagens e coordenador do programa Espaço e Sociedade.

“Nos preocupa muito essas críticas infundadas a uma instituição de décadas de serviço a ciência brasileira”, declarou Ildeu de Castro Moreira, presidente SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Pesquisadores planejam seminário para debater dados do Inpe sobre Amazônia

Cientistas ligados ao Inpe planejam organizar um seminário científico para contrapor os ataques sofridos pelo instituto de membros do governo federal. A ideia, que ainda não tem data, é apostar num evento com especialistas nacionais e estrangeiros e aberto à população, para esclarecer o papel do Inpe no trabalho de medir o desmatamento da Amazônia. “Não temos problema algum em discutir nossa metodologia. Os dados são abertos há muito tempo”, disse o pesquisador Antonio Miguel Vieira Monteiro.

Para o presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), Ildeu de Castro Moreira, duvidar dos dados do Inpe é menosprezar a ciência brasileira. “São críticas infundadas a uma instituição de décadas de serviço à ciência brasileira”. Segundo ele, o “conhecimento científico não pode ser desvalorizado, os dados científicos e as evidências tem que ser respeitadas”.

Em evento científico, ministro interino lamenta críticas ao Inpe: “Foi incidente”

Durante abertura da 71ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, o ministro interino da Ciência e Tecnologia, Júlio Semeghini Neto, não quis avaliar as críticas do presidente Jair Bolsonaro ao Inpe. “Houve um incidente que não deveria ter acontecido, mas a ciência e o Brasil têm que estar acima dessas coisas”, afirmou ele ao programa 'Brasil com Ciência', do SindCT (Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência).

Diretor do Inpe e ministro da Ciência podem se encontrar em evento

O diretor do Inpe, Ricardo Galvão, e o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, podem se encontrar ainda nesta semana, antes mesmo de Galvão participar de reunião em Brasília, para explicar os dados de desmatamentos da Amazônia. Ele já foi convidado pelo ministério, mas ainda sem data para a reunião. Segundo apurou OVALE, Galvão e Pontes podem se encontrar na próxima sexta-feira, em Mato Grosso do Sul, no encerramento da 71ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Desmate em alta incomoda Bolsonaro

A divulgação do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) de mais de mil km² derrubados na floresta amazônica na primeira quinzena de julho, alta de 68% em relação a julho de 2018, foi o estopim para a crise com o presidente Jair Bolsonaro (PSL), que chamou os dados de “mentirosos” –ele voltou atrás depois.

Desde então, o instituto se vê em uma cruzada de membros do governo para desqualificar os dados do Inpe e o seu diretor, Ricardo Galvão, já convidado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia –órgão ao qual é subordinado– para dar explicações em Brasília.

Uma das vozes mais duras contra o instituto que tem sede em São José tem sido a do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele chegou a sugerir uma substituição do Inpe por uma empresa privada para melhorar a análise do desmatamento.

Para pesquisadores, as críticas revelam uma tentativa velada de controlar os dados do desmatamento, ao invés de atacar e combater diretamente o problema, que causa embaraços ao país no exterior.

Especialmente no momento em que prosperam negociações comerciais com importantes blocos, como o Mercosul e a União Europeia.

O governo sabe que há países que só compram produtos brasileiros, como gado e soja, com garantia de que não são derivados de áreas de desmatamento.

Controlar os dados divulgados sobre a perda de áreas verdes na Amazônia seria, portanto, estratégico para as pretensões de Bolsonaro, que já deu mostras de não gostar de estatísticas. Ele já criticou o IBGE, por exemplo, e chegou a dizer que a fome no Brasil é uma “mentira”.

Também o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, criticou a divulgação dos dados. “Reconheço a estranheza quanto à variação dos últimos resultados”, disse.

“Meio ambiente é moeda econômica. Ponto crítico. Governo quer alterar a metodologia IBGE para dados favoráveis e agora trocar dados de desmatamento”, disse Acioli Olivo, servidor aposentado do Inpe.

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