A mudança de atitude segue a galope, em cima de um cavalo Fernão administra com rédeas firmes a fazenda da família que fica em Alta Floresta, na região Norte do Mato Grosso. “A gente não tá aqui pra mostrar o que tem que ser feito, porque a gente ainda não sabe. Nós estamos lutando, vamos tentar um outro caminho, tentar uma alternativa, uma nova pecuária”, explica o produtor rural, Fernão Prado.
A família é de Jaú no interior de São Paulo, foi o pai do Fernão que “subiu o mapa” do país no fim da década de 1970, com o sonho de um “progresso” baseado na ideia de desmatar grandes áreas para criar gado. “Quando eu era garoto, as pessoas mais velhas diziam ter orgulho do meu pai, que ele era um exemplo de coragem. Era o que se vendia, era o que o próprio governo divulgava nas propagandas”, conta Fernão.
Sob o slogan: “integrar para não entregar” é que se desmatou muitas áreas nessa região do país. “Houve a derrubada e a gente tem muita dificuldade de olhar hoje o que aconteceu lá atrás. Tudo muda, a cultura, o conhecimento, a forma de lidar com a natureza e o homem tem que aprender, ou, deveria aprender com isso”, enfatiza Fernão.
O jovem pecuarista seguiu os passos do pai, mas com uma nova maneira de enxergar a fazenda. “Quando cheguei aqui, eu tinha duas alternativas: chorava pelas árvores que tinham caído e não fazia nada, ou, lutava pelas árvores que estavam em pé. Decidi pela segunda opção”, conta Fernão.

Na fazenda de 317 hectares a família continua criando 550 cabeças de gado. “A gente não deixou de criar boi, muito pelo contrário, desde que a gente chegou, ela passou a ser muito mais produtiva do que era antes”, conta Fernão.
A diferença é que hoje a fazenda tem 87 hectares de mata e a principal mudança foi a criação de um corredor ecológico que corta toda fazenda. A propriedade tinha um ponto emblemático, uma área de pastagem de quatrocentos metros, onde só o gado pastava e que era um grande obstáculo para os animais silvestres. “Era intransponível, por exemplo, para os macacos que ficavam isolados. Todo mundo me questionou: ‘você vai criar uma barreira (floresta) no meio da fazenda?’ Foi simples de resolver, colocamos quatro porteiras, enquanto duas abrem para passar o gado, as outras estão fechadas. Depois que trocamos os bois de pasto, nós abrimos as porteiras que conectam a floresta”, complementa Fernão.
Se para muitos proprietários rurais as áreas de preservação permanentes (APP) são um problema, para o Fernão se tornou mais uma fonte de renda. A casa da sede foi adaptada e virou uma pousada para receber turistas do mundo inteiro interessados em observação de aves. Na propriedade já foram registradas: a araracanga, o cardeal da Amazônia, o maracanã-guaçu, o macuru-de-testa-branca, o rapazinho-estriado-do-leste, a saíra-de-cabeça-azul e a espécie que dá nome a fazenda, o anacã. A observação de aves já representa 20% da renda da propriedade. “Hoje o sonho, é que essa ideia se multiplique, que outras fazendas entendam que essa é uma demanda, é uma realidade, que essa mudança vem para somar”, completa Fernão.
O TG mostra essa história e ainda acompanha a busca pelas corujas que começaram a aparecer com frequência na propriedade rural, depois dessa mudança de comportamento. Confira no Terra da Gente deste sábado, 31/12, às 14h na tela da EPTV.





