O presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) Sérgio Ricardo de Almeida sacou R$ 500 mil em dinheiro vivo, em setembro de 2025, após comunicação ao banco que o valor seria destinado à “utilização pessoal”. A operação foi registrada em uma comunicação de operação em espécie encaminhada ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e integra os elementos reunidos pela Polícia Federal na investigação que apura suspeitas de desvio de recursos públicos no órgão, no âmbito da Operação Tomada de Contas.
Conforme o relatório da PF, o saque foi realizado em 30 de setembro de 2025, na agência do Sicoob Integração instalada nas dependências do próprio TCE-MT, em Cuiabá. O valor havia sido previamente provisionado pela instituição financeira, ou seja, solicitado com antecedência para disponibilização em espécie. Na comunicação bancária, Sérgio Ricardo aparece como titular, responsável e sacador da operação, com a finalidade declarada de uso pessoal.
Imagens do circuito interno de segurança analisadas pelos investigadores mostram que o conselheiro acompanhou pessoalmente a movimentação. Na mesma operação, também aparecem a chefe de gabinete Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes, apontados pela PF como participantes da dinâmica de retirada de dinheiro em espécie.
A investigação identificou que Roseli realizava as operações diretamente no caixa da cooperativa, enquanto Adriangelo recolhia o numerário e deixava a agência. A Polícia Federal descreve essa função como cash courier, expressão utilizada para identificar a pessoa responsável pelo transporte de dinheiro em espécie.
A análise das imagens foi cruzada com os dados bancários de Sérgio Ricardo. Segundo a PF, entre janeiro e outubro de 2025, duas contas do conselheiro no Sicoob receberam R$ 15,7 milhões provenientes do próprio TCE-MT, valor que representava 90,3% das entradas identificadas nessas contas. Os investigadores também encontraram correspondência entre as datas das movimentações registradas nas imagens e os saques realizados nas contas de titularidade do conselheiro.
O saque de R$ 500 mil não foi um episódio isolado. O relatório também registra uma retirada de R$ 490 mil em 8 de outubro de 2025 e solicitações de provisionamento de outros R$ 490 mil para os dias 14 e 22 daquele mês.
A rotina, no entanto, mudou após uma diligência realizada pela Polícia Federal na agência bancária, em 14 de outubro. Na ocasião, os investigadores presenciaram a dinâmica de retirada de dinheiro envolvendo Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes. Segundo a PF, a interrupção da diligência pela segurança interna do TCE-MT pode ter comprometido o sigilo da investigação e provocado uma mudança no padrão das operações.
O relatório aponta que os provisionamentos e saques em espécie que ocorriam rotineiramente foram abruptamente interrompidos. Em janeiro de 2026, foram solicitados dois provisionamentos de R$ 400 mil, mas as retiradas não chegaram a ser realizadas. O registro seguinte identificado pela PF foi um saque de R$ 100 mil, em 11 de maio de 2026, valor consideravelmente inferior aos que vinham sendo retirados anteriormente. Para os investigadores, a mudança indica uma possível alteração do modus operandi após o grupo perceber que estava sob monitoramento.
OPERAÇÃO TOMADA DE CONTAS
A Polícia Federal deflagrou a Operação Tomada de Contas na manhã de quinta-feira (29), quando cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Entre os presos está o presidente do TCE-MT, Sérgio Ricardo de Almeida. A operação foi autorizada pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), e mobilizou mais de 180 policiais federais.
Além de Sérgio Ricardo, foram presos a chefe de gabinete Roseli Loss, Adriangelo Barros Antunes, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, Gustavo Fernandes da Silva e Felipe José Glinke. A investigação apura suspeitas de irregularidades em contratos administrativos, pagamentos a conselheiros e servidores e movimentações financeiras consideradas atípicas. Uma das hipóteses investigadas é a existência de uma espécie de folha paralela, abastecida com recursos públicos.
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais apreenderam dinheiro em espécie, incluindo reais, dólares e euros, garrafas de vinho e whisky, relógios de luxo e veículos de alto padrão. As prisões preventivas foram mantidas após audiência de custódia. Os fatos investigados ainda estão sob apuração e não representam condenação dos envolvidos.





