O El Niño está se fortalecendo no Oceano Pacífico e poderá atingir uma intensidade excepcional nos próximos meses. O alerta, feito pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), acrescenta uma preocupação que vai além dos efeitos do fenômeno sobre temperatura, chuvas, estiagem e queimadas: o impacto sobre a saúde da população de Mato Grosso.
Boletim divulgado em 13 de agosto, pelo Climate Prediction Center (CPC), órgão da NOAA, aponta mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte, de 2026/27.
Para o trimestre entre outubro e dezembro, a agência calcula em 69% a possibilidade de o evento superar, em intensidade, os episódios registrados desde o início da série histórica, em 1950.
A NOAA faz, porém, uma ressalva importante: quanto maior a intensidade do El Niño, maiores são as chances de ocorrência de seus efeitos característicos, mas isso não significa que todos eles serão registrados em todas as regiões.
Em Mato Grosso, o alerta sanitário está associado principalmente à combinação que tradicionalmente já desafia o Estado durante a estiagem: temperaturas elevadas, baixa umidade do ar, queimadas e fumaça.
Alterações no regime de chuvas também podem interferir nas condições de reprodução de mosquitos transmissores de doenças.
O resultado é um conjunto de riscos que alcança diferentes áreas da saúde pública.
Doenças respiratórias podem ser agravadas pela fumaça e pelo material particulado produzido nos incêndios.
Temperaturas extremas elevam o risco de desidratação, insolação e complicações cardiovasculares.
Mudanças ambientais podem modificar o comportamento de doenças transmitidas por mosquitos.
Períodos prolongados de calor, seca e queimadas também afetam a qualidade de vida e podem agravar quadros de sofrimento emocional.
Relatório da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) alerta que eventos climáticos extremos associados ao El Niño podem favorecer doenças transmitidas por vetores, agravar problemas respiratórios e cardiovasculares e aumentar casos relacionados ao calor, ampliando a pressão sobre os sistemas de saúde.
Em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) mantém monitoramento de doenças sensíveis às alterações climáticas, entre elas dengue, chikungunya, zika, malária e febre amarela.
Pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) também acompanham a relação entre mudanças ambientais e saúde.
A preocupação é que eventos extremos alterem padrões que durante décadas foram considerados predominantemente sazonais.
O risco não vem de uma única doença – O maior desafio para o sistema público de saúde não está necessariamente em uma epidemia específica, mas na possibilidade de diferentes problemas ocorrerem simultaneamente.
Durante períodos de calor intenso, ar seco e fumaça, unidades de saúde podem receber ao mesmo tempo pacientes com crises respiratórias, desidratação, complicações cardiovasculares e doenças relacionadas à exposição ao calor. Em paralelo, alterações ambientais podem favorecer diferentes ciclos de doenças transmitidas por vetores.
Essa sobreposição amplia a necessidade de consultas, medicamentos, exames, internações e, nos casos mais graves, leitos de terapia intensiva.
A Opas recomenda que os governos reforcem a vigilância epidemiológica, integrem informações meteorológicas e sanitárias e preparem os sistemas de saúde para responder aos eventos climáticos extremos.
Para a população, as principais medidas envolvem hidratação, redução da exposição ao calor e à fumaça, vacinação em dia e eliminação de criadouros do Aedes aegypti.
O alerta da NOAA indica que o fenômeno continuará se fortalecendo até o fim de 2026. Para Mato Grosso, a evolução do El Niño exigirá acompanhamento permanente não apenas dos mapas meteorológicos, mas também dos indicadores de saúde.
AMEAÇA AOS PULMÔES – Entre os efeitos associados ao período de estiagem em Mato Grosso, um dos que produzem consequências mais imediatas sobre a saúde é a deterioração da qualidade do ar.
A fumaça das queimadas, somada à baixa umidade e às temperaturas elevadas, cria uma combinação particularmente agressiva ao aparelho respiratório.
O risco aumenta para crianças, idosos e pessoas que convivem com asma, bronquite, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e outras enfermidades.
Para o pneumologista e professor-doutor Clóvis Botelho, o problema começa antes mesmo da fumaça.
O calor intenso aumenta a perda de líquidos pelo organismo e eleva as frequências cardíaca e respiratória na tentativa de manter a temperatura corporal.
“Quando tem muito calor, a pessoa desidrata, perde muito suor, aumenta a frequência cardíaca e respiratória para tentar manter o equilíbrio do organismo. Essa desidratação altera o fluxo sanguíneo e facilita a formação de coágulos, podendo agravar doenças cardíacas e pulmonares”, explica.
PULMÃO TRABALHA MAIS – Quando a fumaça entra nessa equação, o sistema respiratório enfrenta uma segunda agressão.
O material particulado produzido pelos incêndios permanece suspenso no ar e pode alcançar regiões profundas dos pulmões.
“Durante esse período, o pulmão trabalha muito mais. A baixa umidade, o calor excessivo e o material particulado produzido pelas queimadas irritam as vias respiratórias, favorecem processos inflamatórios e dificultam a defesa natural do organismo”, afirma Botelho.
A exposição pode provocar ou agravar tosse, falta de ar, chiado no peito, crises asmáticas, bronquite e insuficiência respiratória.
A baixa umidade acrescenta outro fator de risco.
O ressecamento das mucosas reduz parte das defesas naturais das vias respiratórias e facilita infecções.
EXTREMOS DA VIDA – Crianças e idosos exigem maior atenção.
Nas crianças, o sistema respiratório ainda está em desenvolvimento. Entre idosos, a capacidade de defesa do organismo diminui e é mais comum a presença simultânea de doenças cardiovasculares, pulmonares, renais, hipertensão e diabetes.
Botelho alerta que ondas prolongadas de calor também podem aumentar adoecimento e mortalidade.
Para reduzir a exposição, especialistas recomendam hidratação frequente, lavagem nasal com soro fisiológico, redução das atividades físicas ao ar livre durante episódios de fumaça intensa e manutenção dos ambientes internos livres de poeira.
A vacinação contra influenza também deve estar atualizada, principalmente entre os grupos de maior risco.
“Não estamos falando apenas de um problema ambiental. A combinação entre calor extremo, fumaça e ar seco transforma esse período em um importante problema de saúde pública”, resume Clóvis Botelho.
DESIDRATAÇÃO AUMENTA RISCO DE INFARTO E AVC – Quando a temperatura dispara, o organismo humano aciona uma série de mecanismos para impedir que o corpo superaqueça.
O problema começa quando a exposição ao calor é prolongada e a perda de água supera a capacidade de reposição.
Nesse cenário, o El Niño acrescenta uma preocupação à saúde pública de Mato Grosso diante da possibilidade de períodos de temperaturas elevadas.
O cardiologista intervencionista e doutor em Cardiologia pela Universidade de São Paulo (USP), Juliano Slhessarenko, explica que calor e desidratação provocam alterações relevantes no sistema cardiovascular.
“O calor provoca a vasodilatação das artérias do coração e do corpo, gerando uma sobrecarga para o sistema cardiovascular. Quando isso se associa à desidratação, o sangue fica mais viscoso, favorecendo a formação de coágulos e trombos que podem obstruir as artérias e provocar infarto ou AVC”, explica.
Coração trabalha mais – Para dissipar calor, o organismo aumenta a transpiração. Com ela, perde água e sais minerais.
A redução do volume de sangue circulante pode diminuir a pressão arterial e exigir maior esforço do coração para manter o funcionamento do organismo. Tonturas, fraqueza, desmaios e quedas também podem ocorrer.
Pessoas saudáveis geralmente conseguem compensar essas alterações.
O risco aumenta entre pacientes com hipertensão, insuficiência cardíaca, doença coronariana, diabetes, obesidade ou problemas renais.
Pacientes que utilizam medicamentos cardiovasculares também precisam de atenção.
Diuréticos aumentam a eliminação de líquidos e podem favorecer a desidratação.
A recomendação, entretanto, não é alterar ou suspender medicamentos por conta própria, mas reforçar os cuidados e procurar orientação médica quando necessário.
QUANDO O CORPO PERDE O CONTROLE – Um dos quadros mais graves é o estresse térmico, que ocorre quando o organismo tem dificuldade para manter sua temperatura interna.
Sede intensa, dor de cabeça, fadiga, fraqueza, suor excessivo e câimbras estão entre os primeiros sinais.
Confusão mental, perda de consciência e convulsões indicam maior gravidade.
Trabalhadores rurais, profissionais da construção civil e pessoas que permanecem longos períodos expostas ao sol estão particularmente sujeitos ao problema.
Juliano recomenda hidratação ao longo de todo o dia.
Como referência geral, aponta cerca de 30 mililitros de água por quilo de peso corporal, ressalvadas situações clínicas em que a quantidade de líquidos precisa ser individualizada pelo médico.
SAÚDE EMOCIONAL – Os efeitos dos eventos climáticos extremos não terminam nos pulmões ou no sistema cardiovascular.
Períodos prolongados de calor, fumaça, seca e incêndios também podem afetar o sono, a rotina, as relações sociais e o bem-estar emocional.
A Organização Pan-Americana da Saúde inclui a saúde mental entre as áreas que exigem atenção diante de eventos climáticos extremos.
Perdas materiais, insegurança econômica, interrupção de atividades produtivas e mudanças forçadas na rotina podem ampliar o sofrimento psicológico.
A psicóloga Hannyele de Almeida Rocha, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, ressalva que o clima, isoladamente, não causa um transtorno mental.
“O clima por si só não gera transtornos mentais específicos, mas pode agravar sintomas em pessoas mais sensíveis ou que já possuem ansiedade e depressão. O organismo e a mente precisam fazer um esforço maior para se adaptar às mudanças climáticas, e isso acaba refletindo no equilíbrio emocional.”
SONO É UM DOS PRIMEIROS AFETADOS – Temperaturas elevadas durante a noite podem prejudicar a qualidade do sono.
O resultado no dia seguinte aparece em forma de cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração e menor disposição para as atividades cotidianas.
“Observamos aumento da irritabilidade, do estresse e até crises de ansiedade. As noites muito quentes ou muito frias também prejudicam um sono reparador”, afirma Hannyele.
Quando calor e fumaça persistem durante vários dias, atividades ao ar livre diminuem e a rotina familiar é alterada.
No campo, há ainda outro componente. Incêndios e estiagens podem trazer medo de perdas de lavouras, pastagens, rebanhos e patrimônio. A incerteza econômica prolongada acrescenta pressão emocional sobre produtores, trabalhadores e suas famílias.
Quando procurar ajuda – Mudanças passageiras de humor não significam necessariamente adoecimento.
O sinal de alerta aparece quando os sintomas persistem e começam a interferir no trabalho, nos estudos, na vida familiar ou nas relações sociais.
Tristeza persistente, ansiedade constante, irritabilidade excessiva, insônia, perda de interesse por atividades habituais e isolamento merecem atenção.
Manter rotina de sono, hidratação e alimentação, praticar atividades físicas em horários adequados e preservar momentos de lazer e convívio social estão entre as medidas recomendadas.
Para Hannyele, pessoas que já apresentam sintomas de ansiedade, depressão ou estresse também podem se beneficiar de acompanhamento profissional.
A Opas recomenda que a preparação dos sistemas de saúde diante de eventos climáticos extremos também contemple a saúde mental e a atenção básica.
O desafio para Mato Grosso, portanto, não estará apenas em acompanhar a temperatura ou a quantidade de focos de calor.
Os efeitos de um período extremo podem alcançar simultaneamente o ar que se respira, o coração, a circulação e a saúde emocional.





