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O que se diz, o que se faz e o que fica no silêncio

O que se diz, o que se faz e o que fica no silêncio

A Política Invisível

O que se diz, o que se faz e o que fica no silêncio

Entre coletivas inesperadas, decisões prorrogadas e gestos públicos cuidadosamente calculados, o cenário revela mais do que aparenta.

Imagem ilustrativa - Pixabay

Alta Floresta tem seus próprios fenômenos naturais; uns dizem que é o calor, outros juram que são as chuvas repentinas; mas há quem sustente que o mais impressionante deles é a habilidade de certas instituições de esticar o tempo, dobrar calendários e manipular agendas com uma destreza que faria inveja a qualquer físico quântico. E, claro, toda vez que uma narrativa nova surge, o relógio institucional parece ganhar vida própria.

A coletiva da CDL nesta segunda-feira (17) foi mais um desses momentos em que o tempo dá voltas; o Sistema de Autorregularização Tributária da Prefeitura, ainda em fase de testes, sem multas automáticas, sem novos impostos e anunciado há semanas em reuniões com contadores, virou repentinamente o “grande vilão do comércio”; e, curiosamente, virou vilão logo depois que a entidade tomou conhecimento pelas redes sociais, como se isso, por si só, fosse uma ofensa institucional intolerável. O curioso não é o conteúdo, mas o roteiro: o problema nunca é exatamente técnico; o problema é sempre a oportunidade política que ele oferece.

E, como em toda boa crônica municipal, há sempre capítulos anteriores que ajudam a entender o enredo atual; primeiro, a assembleia extraordinária de fevereiro, que prorrogou o mandato da atual diretoria até dezembro de 2029, um feito que certamente desafia a física, já que a eleição, originalmente agendada para 16 de julho de 2024 e válida para o biênio 2024-2025, simplesmente deixou de ser uma necessidade; foram pedidos esclarecimentos e se quer foi respondido; silêncio, que por si só já diz muito.

Depois veio o episódio da LATAM, quando um simples e-mail de confirmação de recebimento, coisa rotineira em qualquer atendimento corporativo, foi divulgado como se fosse um aceno de interesse da companhia aérea em operar na cidade; nada contra a esperança, mas transformar um “e-mail recebido” em quase um “voo confirmado” é, no mínimo, um salto olímpico na comunicação institucional. Nos bastidores, comentários de que alguns membros da diretoria teriam cogitado sair ou até saído, embora nenhuma publicação oficial tenha confirmado nada disso; Alta Floresta é assim: os fatos circulam antes das notas.

E no meio de tudo isso ainda paira a história da sala cedida a uma entidade, oferecida, talvez aceita, talvez não, mas usada à época para fortalecer alianças e pavimentar terreno eleitoral; histórias que, quando contadas em voz baixa, parecem apenas coincidências, mas que, reunidas, desenham um padrão de comportamento tão constante quanto as tempestades que caem em novembro. No fundo, o que se vê é menos sobre tributos e mais sobre protagonismo; menos sobre empresas e mais sobre a disputa narrativa que vem sendo reciclada ao longo dos meses: transformar qualquer ação técnica da Prefeitura em combustível político.

E a Prefeitura?

Nem vilã, nem santa, apenas previsivelmente desastrada na comunicação. A administração municipal, com sua característica falta de timing para dialogar com o setor produtivo, entregou de bandeja o palco para a CDL. A ausência de conversa prévia permitiu que o assunto ganhasse uma interpretação mais política do que técnica. Mas a falha de comunicação não anula uma iniciativa fiscal moderna. Enquanto isso, o comércio local vive sua realidade concreta: inadimplência elevada, perda de faturamento, juros altos. E, curiosamente, são temas que recebem muito menos holofote do que deveriam.

Enquanto isso, o sistema de autorregularização segue seu curso, ainda em teste, ainda sem multa, ainda sem impacto real; mas já posicionado convenientemente, como peça de um novo conflito entre a entidade e o município. E assim Alta Floresta segue: ora discutindo cronogramas que se estendem até 2029, ora celebrando e-mails que não dizem o que se divulgou, ora promovendo coletivas para reagir a informações que poderiam ter sido discutidas em reuniões já agendadas.

Se existe um fenômeno realmente constante na cidade, talvez seja este: quando a técnica fica pequena diante da política, a política sempre aproveita para crescer; e quando o relógio deveria marcar apenas a hora, acaba marcando também a intenção de quem o apresenta.

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