Um trabalhador rural de 58 anos chega ao consultório mancando. Sente dor no joelho há pelo menos cinco anos, mas atribuía o incômodo ao desgaste do serviço, ao peso carregado diariamente, ao corpo que “já não é mais o mesmo”.
Quando finalmente procura um ortopedista, o raio-X mostra uma articulação comprometida. O desgaste da cartilagem, que poderia ter sido tratado com intervenções menores anos antes, agora exige uma cirurgia mais complexa.
Esse tipo de história se repete em consultórios de todo o país. A artrose, nome popular da osteoartrite, é a doença articular mais comum entre adultos acima de 50 anos.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 15 milhões de brasileiros convivem com o problema, o que representa aproximadamente 7% da população. Os joelhos são a articulação mais afetada, por sustentarem boa parte do peso corporal e sofrerem maior estresse mecânico ao longo dos anos.
O dado preocupa porque a artrose não tem cura. Trata-se de uma condição degenerativa: a cartilagem que protege a superfície dos ossos dentro da articulação vai se desgastando de forma progressiva e irreversível.
A questão, então, não é se o desgaste vai avançar, mas em que velocidade isso acontece e quando o paciente decide procurar atendimento.
O joelho que dói, mas “ainda funciona”
Dr. Ulbiramar Correia, que atende em Goiânia e é especialista em procedimentos minimamente invasivos no joelho, pontua que a artrose de joelho raramente começa de forma abrupta.
Os primeiros sinais aparecem como uma dor leve ao subir escadas, um incômodo ao se levantar da cadeira depois de ficar sentado por muito tempo, uma rigidez matinal que demora alguns minutos para passar. Esses sintomas costumam ser intermitentes e muitos pacientes convivem com eles por anos sem buscar avaliação médica.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, entre os indivíduos acima dos 50 anos, 60% já apresentam algum grau de degeneração articular. Na faixa dos 70 anos, a taxa sobe para 80%.
O problema é que boa parte dessas pessoas só procura um especialista quando a dor se torna constante e começa a limitar atividades básicas do cotidiano. Essa demora tem consequências diretas no tratamento. Quanto mais avançado o desgaste, menor a variedade de opções terapêuticas.
Um joelho com artrose leve ou moderada pode ser tratado com fisioterapia, controle de peso, exercícios de fortalecimento muscular e, em alguns casos, infiltrações. Quando o quadro evolui para graus severos, a cirurgia passa a ser a alternativa mais viável para devolver qualidade de vida ao paciente.
Peso, idade e trabalho pesado: o perfil de quem mais sofre
Três fatores aparecem com frequência nos estudos sobre artrose de joelho: idade, excesso de peso e sobrecarga articular. No norte de Mato Grosso, onde a economia se apoia na pecuária, no garimpo e na agricultura, a rotina de trabalho pesado potencializa o desgaste articular.
Operadores de máquinas, trabalhadores rurais e profissionais que passam muitas horas em pé ou carregando peso estão entre os grupos de maior risco.
A obesidade agrava o quadro de forma direta. Estudos publicados na Revista Brasileira de Ortopedia demonstram que cada quilo a mais no corpo representa cerca de quatro quilos de carga adicional sobre o joelho a cada passo.
Em uma população onde o sobrepeso é comum e o acesso à orientação nutricional nem sempre está disponível, o avanço da artrose se acelera.
As mulheres também são mais afetadas. Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS mostram que, entre as internações por artrose em idosos no Brasil, mais de 60% correspondem a pacientes do sexo feminino. A menopausa, com a queda nos níveis de estrogênio, contribui para a perda de massa óssea e para a degeneração da cartilagem.
O problema do acesso em regiões distantes dos grandes centros
Em cidades como Alta Floresta, Guarantã do Norte, Colíder e outras do extremo norte mato-grossense, o acesso a ortopedistas especializados em joelho é limitado. Muitos pacientes dependem de encaminhamentos para Cuiabá ou Goiânia, o que aumenta o tempo entre o início dos sintomas e o diagnóstico correto.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia analisou as artroplastias de joelho realizadas pelo SUS entre 2008 e 2015 e identificou que as regiões Norte e Centro-Oeste apresentam os menores índices de cirurgias por habitante.
A região Norte, em particular, registra os números mais baixos do país. Isso não significa que a artrose seja menos prevalente nessas áreas. Indica, na verdade, que muitos pacientes não estão sendo diagnosticados ou não conseguem acesso ao tratamento cirúrgico quando necessário.
O resultado prático é que, quando o paciente do interior finalmente chega ao especialista, o quadro já está avançado. Opções menos invasivas ficam fora do alcance e a cirurgia de substituição total da articulação se torna o caminho mais provável.
Quando o desgaste está em apenas uma parte do joelho
Nem toda artrose compromete o joelho inteiro. A articulação é dividida em três compartimentos: medial (interno), lateral (externo) e patelofemoral (a região entre a patela e o fêmur). Em muitos casos, o desgaste fica restrito a um desses compartimentos, especialmente o medial, que suporta maior carga.
Quando a artrose é localizada e o paciente mantém bom alinhamento do membro e estabilidade dos ligamentos, existe a possibilidade de substituir apenas a parte afetada. O tratamento de artrose no joelho inclui desde medidas conservadoras até cirurgias de diferentes complexidades, e a escolha depende do estágio do desgaste e das condições clínicas do paciente.
Essa informação é relevante porque muitos brasileiros desconhecem que o tratamento da artrose não se resume a “colocar prótese total ou conviver com a dor”.
Existe um espectro de intervenções que vai de exercícios orientados até procedimentos cirúrgicos de menor porte. O acesso a essa avaliação detalhada, porém, depende de chegar ao especialista no momento adequado.
A prótese que substitui apenas o compartimento afetado
Quando o tratamento conservador não consegue mais controlar a dor e o paciente tem artrose restrita a um único compartimento, a artroplastia unicompartimental é uma opção que tem ganhado espaço. O procedimento substitui apenas a superfície desgastada, preservando os ligamentos cruzados, a patela e as áreas saudáveis da articulação.
As vantagens em relação à prótese total são documentadas em literatura médica: incisão menor, menos remoção de osso, sangramento reduzido, recuperação mais rápida e sensação de movimento mais próxima do natural.
Segundo estudo publicado na SciELO Brasil, 84% dos cirurgiões de joelho do país reconhecem a validade do procedimento e 80% acreditam que o número dessas cirurgias deve crescer à medida que os especialistas ganham familiaridade com a técnica.
Para pacientes do interior, que enfrentam longos deslocamentos e não podem se afastar por muito tempo de suas atividades, a recuperação mais curta é um diferencial relevante. As clínicas especialistas em prótese unicompartimental permitem que o paciente tenha acesso a uma avaliação criteriosa para saber se é candidato a esse tipo de procedimento.
A indicação, contudo, não é para todos. Pacientes com artrose generalizada, deformidades graves no alinhamento do membro, instabilidade ligamentar ou doenças inflamatórias sistêmicas como artrite reumatoide geralmente precisam de prótese total.
A decisão depende de exame físico detalhado, radiografias com carga e, em muitos casos, ressonância magnética.
Os números que o SUS revela sobre o joelho brasileiro
Os registros do DATASUS mostram um cenário preocupante. Entre 2012 e 2021, foram realizadas mais de 65 mil artroplastias primárias de joelho pelo sistema público de saúde, com custo total superior a R$ 271 milhões. O volume vem crescendo, impulsionado pelo envelhecimento da população e pela maior prevalência de obesidade.
No estado de Goiás, onde estão concentrados centros de referência em cirurgia do joelho, o número de procedimentos saltou de 37 autorizações em 2008 para 330 em 2019, segundo levantamento publicado pela revista do Conselho Regional de Medicina de Goiás. A pandemia reduziu temporariamente os números em 2020 e 2021, mas a recuperação a partir de 2022 retomou a tendência de crescimento.
A região Centro-Oeste, embora tenha avançado, ainda apresenta disparidade em relação ao Sudeste e ao Sul. Para pacientes de Mato Grosso, Goiânia se consolidou como um dos polos de referência mais procurados, tanto pela proximidade geográfica quanto pela concentração de especialistas com volume cirúrgico expressivo.
Dados do setor de turismo médico indicam que 57% dos visitantes que vão a Goiânia têm tratamento de saúde como motivo principal da viagem.
A diferença entre protelar e planejar
Adiar a ida ao ortopedista não é o mesmo que optar por tratamento conservador. O tratamento conservador é uma estratégia ativa: envolve fortalecimento muscular, controle de peso, adaptação de atividades e acompanhamento regular. Protelar é simplesmente ignorar os sintomas até que eles se tornem incapacitantes.
Quando a artrose é identificada em estágio inicial ou intermediário, o médico pode montar um plano de tratamento que adia a necessidade de cirurgia por anos. Fisioterapia direcionada, uso correto de analgésicos e anti-inflamatórios, perda de peso e modificação de hábitos têm impacto documentado na progressão da doença.
De acordo com os especialistas do COE, centro de referência ortopédica sediado na capital de Goiás, o problema surge quando o paciente chega ao consultório com o joelho já comprometido em mais de um compartimento, com deformidade visível e perda grave de função.
Nesse cenário, as opções se estreitam. A janela para intervenções menos invasivas se fecha e a artroplastia total, apesar de eficaz e com bons resultados, exige cirurgia de maior porte, internação mais prolongada e reabilitação mais longa.
O que está ao alcance de quem sente dor no joelho
O primeiro passo é procurar avaliação especializada. A dor persistente no joelho que piora ao caminhar, subir escadas ou permanecer sentado por longos períodos justifica uma consulta com ortopedista. O diagnóstico da artrose é feito com exame físico e radiografias, sem necessidade de exames caros ou invasivos.
Em Mato Grosso, a distância dos grandes centros não precisa ser sinônimo de atraso no diagnóstico. A telemedicina ampliou o acesso a orientações iniciais, e o deslocamento para cidades com infraestrutura ortopédica pode ser planejado quando há indicação cirúrgica. O que não pode acontecer é esperar a dor se tornar insuportável para começar a investigar.
A prótese de joelho, seja total ou parcial, tem durabilidade estimada entre 15 e 25 anos, segundo a literatura médica. Mais de 90% das próteses totais permanecem funcionais após 20 anos de implantação. Esses números indicam que, quando bem indicada e realizada por equipe experiente, a cirurgia devolve qualidade de vida por décadas.
A artrose não vai regredir sozinha. A cartilagem que se perdeu não se regenera. Mas o impacto da doença na vida do paciente depende, em grande parte, de quando e como o tratamento começa.





