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‘Lista Suja’ do trabalho escravo inclui três novos empregadores de MT

‘Lista Suja’ do trabalho escravo inclui três novos empregadores de MT

CADASTRO ATUALIZADO

‘Lista Suja’ do trabalho escravo inclui três novos empregadores de MT

Casos registrados em Nova Maringá, Sorriso e Alto Taquari resultaram no resgate de 42 trabalhadores, incluindo adolescentes

Três novos empregadores de Mato Grosso passaram a integrar o Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, conhecido como “Lista Suja” do trabalho escravo. Os casos ocorreram nos municípios de Nova Maringá, Sorriso e Alto Taquari e resultaram no resgate de 42 trabalhadores, entre eles adolescentes.

A atualização do cadastro foi divulgada neste mês de outubro pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e reúne ocorrências identificadas pela Inspeção do Trabalho entre 2024 e 2026.

Em todo o país, foram incluídos 82 novos empregadores, distribuídos por 21 unidades da Federação. O número representa uma redução de aproximadamente 51,48% em relação à atualização anterior. Dos novos integrantes, 54 são pessoas físicas e 28 são pessoas jurídicas.

Conforme a Auditoria Fiscal do Trabalho em Mato Grosso (AFTMT), as operações realizadas no Estado identificaram situações de extrema precariedade, com trabalhadores submetidos a alojamentos improvisados, ausência de água potável, instalações sanitárias inadequadas, falta de equipamentos de proteção individual e irregularidades na contratação e no pagamento de salários.

Em alguns casos, os trabalhadores dormiam em barracos de lona, contêineres ou até mesmo dentro de um ônibus adaptado, sem condições mínimas de higiene e segurança.

As fiscalizações também identificaram exposição a riscos de acidentes, ausência de assistência médica e descumprimento das normas de saúde e segurança do trabalho.

EXTRAÇÃO DE MADEIRA – Em Nova Maringá (400 km ao Médio-Norte de Cuiabá), 20 trabalhadores, incluindo um adolescente de 17 anos, foram resgatados durante a operação “Resgate V”, realizada em setembro de 2025.

A ação foi conduzida pela Auditoria Fiscal do Trabalho, em conjunto com o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Polícia Federal (PF).

Os trabalhadores haviam sido contratados pela empresa T.F. Zimpel Ltda. para atividades de corte e empilhamento de madeira.

Segundo a fiscalização, as vítimas eram mantidas em barracos de lona e em um contêiner que não ofereciam condições mínimas de habitabilidade.

Não havia instalações sanitárias adequadas, locais apropriados para alimentação ou espaços destinados à higiene pessoal.

A água utilizada para beber, cozinhar, tomar banho e lavar roupas era retirada diretamente de um córrego próximo aos alojamentos.

Os auditores também constataram ausência de equipamentos de proteção individual, falta de exames médicos ocupacionais e inexistência de medidas adequadas de prevenção de acidentes.

Foram identificados ainda atrasos salariais, contratações informais e relatos de insegurança alimentar.

Com base nas provas reunidas, a fiscalização apontou responsabilidade solidária entre a empresa responsável pela contratação e os proprietários da área rural, que comercializavam a madeira e se beneficiavam da atividade.

MORADIA EM ÔNIBUS – Em Sorriso (420 km ao Norte de Cuiabá), dez trabalhadores da construção civil foram resgatados após a fiscalização constatar que estavam alojados em um ônibus adaptado, utilizado como moradia durante a execução de obras.

Os operários haviam sido contratados pela empresa Líder Pisos Construções.

A inspeção encontrou condições precárias de higiene, conforto e segurança dentro do veículo.

O banheiro não possuía vaso sanitário nem pia. Havia infestação de baratas, armazenamento inadequado de alimentos e instalações elétricas improvisadas, que representavam riscos de choques elétricos e incêndios.

O esgoto do ônibus era despejado diretamente na via pública.

Além disso, os trabalhadores conviviam com calor excessivo, falta de privacidade e ausência de espaços apropriados para descanso e alimentação.

O fornecimento de água potável também era inadequado.

A fiscalização identificou pagamentos de parcelas salariais fora dos registros formais e falhas no gerenciamento de riscos ocupacionais.

Diante do conjunto de irregularidades, os dez operários foram resgatados por estarem submetidos a condições degradantes de trabalho.

FAZENDA EM ALTO TAQUARI – Outro caso ocorreu em março deste ano, na Fazenda Taquari, localizada em Alto Taquari (479 km ao Sul de Cuiabá).

Durante operação do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, foram encontrados 12 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão.

A maioria havia sido recrutada em outros estados, principalmente Maranhão e Minas Gerais, por intermediadores de mão de obra.

Dos 12 trabalhadores, apenas um possuía registro formal de emprego. Entre os resgatados estava um adolescente que exercia atividade proibida para sua faixa etária.

Os auditores identificaram alojamentos com graves problemas estruturais, instalações elétricas improvisadas e ausência de condições adequadas de higiene.

Também foram constatadas jornadas excessivas, falta de equipamentos de proteção individual, inexistência de treinamentos obrigatórios e ausência de assistência médica regular.

Os trabalhadores atuavam em atividades relacionadas ao corte de madeira e à produção de carvão vegetal, expostos a riscos graves de acidentes.

A investigação identificou ainda indícios de aliciamento de trabalhadores migrantes para exploração laboral, situação encaminhada aos órgãos competentes para apuração.

FISCALIZAÇÃO PERMANENTE – A Auditoria Fiscal do Trabalho mantém em Mato Grosso uma equipe especializada no combate ao trabalho escravo contemporâneo, composta por oito auditores-fiscais.

O grupo atua na apuração de denúncias e na realização de operações em diferentes regiões do Estado.

Segundo o órgão, é realizada pelo menos uma operação mensal voltada à identificação e interrupção de situações de exploração laboral.

Somente em 2026, considerando também os processos fiscalizatórios ainda em andamento, as ações já resultaram no resgate de 92 trabalhadores em condições análogas à escravidão em Mato Grosso.

Entre as vítimas estão cinco mulheres e dois menores de idade.

Os números demonstram que, apesar do avanço da fiscalização e da legislação trabalhista, a exploração de mão de obra em condições degradantes permanece presente em diferentes atividades econômicas do Estado, tanto no meio rural quanto em áreas urbanas.

A inclusão na “Lista Suja” ocorre após a conclusão do processo administrativo, com garantia do direito de defesa, e funciona como instrumento de transparência pública sobre empregadores responsabilizados administrativamente pela prática.

Para a Auditoria Fiscal do Trabalho, os resultados reforçam a importância da participação da sociedade por meio de denúncias e da continuidade das operações de fiscalização.

O objetivo é interromper situações de exploração, responsabilizar os envolvidos e assegurar que os trabalhadores tenham seus direitos fundamentais respeitados.

Fonte: Joanice de Deus - Diário de Cuiabá

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