Pesquisar

Alta da dengue no país expõe efeitos das mudanças climáticas na saúde

Alta da dengue no país expõe efeitos das mudanças climáticas na saúde

Mudanças climáticas

Alta da dengue no país expõe efeitos das mudanças climáticas na saúde

Brasil registrou aumento de 346% nos casos de Dengue no início de 2024. O número revela como alterações no clima influenciam no agravamento de doenças.

A alta da dengue no Brasil, que registrou aumento de 346% neste ano em relação a 2023, potencializou discussões sobre as ações de combate ao vírus no país. Porém, o impacto das mudanças climáticas em relação à doença ainda é pouco discutido.

A confluência de fatores como aumento médio da temperatura, mudanças na distribuição das chuvas, alterações nas correntes de vento e a maior incidência de fenômenos extremos contribuem para a potencialização de doenças. No Brasil, essa “tempestade perfeita” de condições adversas repercute sobretudo no agravamento das chamadas arboviroses, doenças causadas por vírus que têm como vetores principais os artrópodes (mosquitos e carrapatos).

A dengue foi registrada pela primeira vez no Brasil no início dos anos 1980. Naquela mesma década, causou endemias no Rio de Janeiro e em algumas capitais do Nordeste. Com o passar dos anos, avançou sobre novas áreas do território nacional. As baixas temperaturas do Sul do país e a grande altitude de certas regiões do Sudeste eram barreiras naturais para a proliferação do mosquito. Na última década, as mudanças climáticas e a urbanização têm consolidado a marcha da dengue no Brasil, com alta recorde de casos.

A dengue, porém, é apenas uma das doenças impulsionadas diretamente pelas mudanças climáticas. Isso porque zika, chikungunya e outras condições infecciosas também são potencializadas com o aumento da temperatura e mudanças no ciclo das águas. E todas essas podem se intensificar em um cenário de degradação ambiental, como o desmatamento, ou defasagem na infraestrutura urbana, a exemplo da falta de saneamento básico.

Tempestade perfeita

Conforme explica o analista socioambiental do Instituto Centro de Vida (ICV), Marcondes Coelho, as mudanças climáticas são alterações nas propriedades do clima ao longo do tempo. E essas perturbações ecológicas interferem na manutenção dos patógenos de doenças em seus ambientes naturais e favorecem a presença, distribuição e proliferação dos vetores das doenças em áreas florestais e urbanas.

“Neste sentido, podemos usar a dengue como um exemplo. Ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um alerta sobre a disparada de casos de dengue no mundo em razão do aquecimento global. A OMS destacou o aumento das temperaturas médias, das chuvas e os períodos prolongados de seca como razões centrais para os recordes da doença mundialmente”, disse Coelho.

Também no final do ano passado, o relatório global “The Lancet Countdown” apresentou uma previsão de que a dengue pode aumentar seu potencial de transmissão entre 36% e 37% com o aumento das temperaturas globais e alterações em outros padrões climáticos.

“Por um lado, uma maior frequência de chuvas acarreta no acúmulo de água em mais recipientes, aumentando a oferta de criadouros para as fêmeas dos mosquitos depositarem seus ovos. Por outro, um período de seca extrema obriga as pessoas a armazenaram água em tonéis ou em outros depósitos artificiais, que podem se tornar criadouros para a proliferação e aumento da população dos vetores. Essas duas realidades [chuva intensa e seca extrema] podem ocorrer devido ao desequilíbrio dos níveis de precipitação causados pela mudança do padrão climático, principalmente pelas emissões de gases de efeito estufa, em que a participação do desmatamento na Amazônia é uma fonte importante de emissões do nosso país”, acrescentou.

Coelho destaca ainda que há conexão direta entre o avanço do desmatamento e o aumento de casos de dengue. Em um dos casos, cuja análise foi divulgada em janeiro de 2022, a alta da doença no Cerrado alinhada ao desmatamento foram o plano de fundo da pesquisa. Os pesquisadores verificaram que há, sim, relação entre os fatores estudados. Divulgado em julho de 2021, estudo focado na Amazônia também localizou conexões entre o avanço do desmatamento e o agravamento de doenças.

Alta exposição

Os efeitos das mudanças climáticas têm um amplo alcance, mas há grupos sociais que são mais impactados, argumenta o analista. Para Coelho, determinadas populações estão mais expostas a situações de vulnerabilidade social pelo baixo acesso à infraestrutura. E sofrem mais com as repercussões das alterações relacionadas ao clima na saúde.

O analista destaca que é importante a criação de mecanismos que barrem o avanço das mudanças climáticas, principalmente do aquecimento global. Em paralelo, também é necessário que haja ações focadas no combate às desigualdades sociais e raciais.

“O mundo precisa mudar sua matriz energética e de produção de bens e serviços para transição de baixo carbono. A meta climática é cortar as emissões até 2030 em 28% para atingir a meta de 2°C do Acordo de Paris, ou uma redução de 42% para a meta de 1,5°C”, destacou.

“A redução de desigualdades sociais e raciais é parte central para esses objetivos, principalmente na Amazônia. A região concentra nossas maiores emissões e é onde podem surgir até novas pandemias se a devastação da floresta não for controlada. O investimento em educação e formação profissional, em habitação e saneamento básico, nas instalações de saúde e na geração de renda (sociobioeconomia) são prioridades fundamentais, especialmente para as populações vulnerabilizadas”, acrescentou.

Fonte: Assessoria

Receba as notícias do Nativa News no seu WhatsApp.

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Imprimir

Comentários