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Febre dos bebês reborn mobiliza redes, legisladores e religiosos e acende alerta sobre saúde mental no Brasil

Febre dos bebês reborn mobiliza redes, legisladores e religiosos e acende alerta sobre saúde mental no Brasil

Por trás da febre dos bebês reborn

Febre dos bebês reborn mobiliza redes, legisladores e religiosos e acende alerta sobre saúde mental no Brasil

Bonecas hiper-realistas que imitam recém-nascidos são usadas como ferramenta terapêutica, mas comportamento excessivo preocupa autoridades, psicólogos e até padres

(Imagem: PxHere/CC0/Domínio Público)

A febre dos bebês reborn, bonecas hiper-realistas feitas à mão que imitam bebês recém-nascidos se espalhou pelas redes sociais e agora repercute também no legislativo brasileiro e entre líderes religiosos. A tendência, que ganhou milhões de visualizações na internet, mostra adultos, principalmente mulheres simulando rotinas maternas com os bonecos: dando banho, trocando fraldas, levando ao médico e em alguns casos, utilizando as bonecas para acessar filas preferenciais e serviços públicos.

O fenômeno, antes restrito ao nicho do colecionismo artístico, agora levanta preocupações sociais, éticas e psicológicas. No Rio de Janeiro, foi aprovado no início de maio o projeto de lei nº 1892/2023, que cria o “Dia da Cegonha Reborn”, em homenagem às artesãs que produzem as bonecas. No entanto, a proposta gerou polêmica e uma série de projetos de lei em resposta ao uso exagerado desses objetos.

Projetos de Lei em andamento

Entre os principais PLs relacionados ao tema estão:

  • PL 5357/2025 (RJ): De autoria do deputado Rodrigo Amorim (União), o texto propõe a criação de um programa de assistência à saúde mental para pessoas que desenvolvem laços emocionais intensos com os bebês reborn. A proposta reconhece a função terapêutica da prática, mas alerta para riscos de dependência emocional e fuga da realidade.

  • PL 3.757/2025 (MG): Proposto pelo deputado Cristiano Caporezzo (PL), o projeto visa proibir o atendimento de bonecas reborn e outros objetos inanimados nas unidades de saúde pública de Minas Gerais. Em caso de descumprimento, a multa seria de até 10 vezes o valor do serviço prestado pelo SUS.

  • PL 2320/2025 (GO): De autoria do deputado Zacharias Calil (União), a proposta quer impedir o uso de bebês reborn para garantir atendimento prioritário em órgãos públicos e transportes coletivos. A multa pode chegar a R$ 30.360. O projeto foi motivado por denúncias de influenciadoras que usaram as bonecas para “furar fila” e gerar engajamento em vídeos.

Repercussão religiosa e profissional

A discussão chegou até a esfera religiosa. O padre Chrystian Shankar, de Divinópolis (MG), recusou-se a realizar batismos de bebês reborn e criticou o comportamento de adultos que buscam ritos religiosos para bonecas. Para ele, situações como essa devem ser tratadas por profissionais da saúde mental, e não pela Igreja. “Isso é caso para psicólogo ou psiquiatra”, afirmou o sacerdote em uma celebração.

Já entre os especialistas, a prática divide opiniões. A psicóloga Arieli Groff explica que os reborns podem sim ter função terapêutica, especialmente em processos de luto ou traumas, mas que é necessário observar os limites. “Quando a boneca começa a substituir vínculos reais ou a impedir o convívio social saudável, é hora de procurar ajuda”, alerta.

Reflexo de uma sociedade adoecida?

Para alguns estudiosos, a ascensão dos bebês reborn no Brasil pode refletir uma sociedade cada vez mais solitária, com lacunas emocionais não preenchidas por laços reais. A psicóloga Magda Tartarotti vê nas bonecas um símbolo de uma maternidade idealizada, sem os desafios reais da criação de filhos.

A artista Si Fortuna, uma das mais experientes do ramo no país, destaca que a internet foi o grande motor de popularização dos reborns no Brasil. “Antes, era uma arte para poucos. Hoje, virou entretenimento, terapia, e até estilo de vida”, diz.

O avanço da febre dos bebês reborn revela mais do que uma moda ou um novo nicho de mercado, escancara fragilidades emocionais, a carência de vínculos afetivos reais e a necessidade de discutir saúde mental com mais seriedade. O desafio agora é equilibrar o uso terapêutico dessas bonecas com os limites da fantasia, sem banalizar o cuidado e o afeto que pertencem à vida real.

 

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