A produção de leite em Mato Grosso registrou queda de 41% nos últimos dez anos, segundo levantamento técnico do Observatório de Mato Grosso. Entre os fatores que explicam o recuo está a baixa produtividade média dos rebanhos no estado. No entanto, uma pesquisa desenvolvida pela Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop, indica que a combinação entre genética adequada e manejo eficiente de pastagens pode representar uma alternativa viável para reverter esse cenário.
Nos primeiros 12 meses de avaliação com vacas girolando 5/8, a produção média alcançada foi de 14 litros por dia por animal em lactação — índice quase três vezes superior à média estadual. De acordo com o pesquisador Luciano Lopes, responsável pelo estudo, o rebanho conta atualmente com cerca de 40 vacas em lactação, sendo que algumas atingem média diária de 26 litros.
O plantel vem sendo aprimorado nos últimos anos com foco na consolidação da genética girolando 5/8, que equilibra a alta produtividade do gado Holandês com a rusticidade e resistência ao calor do Gir. Ainda há, no entanto, animais mestiços com diferentes graus de cruzamento.
Além da genética, o manejo da pastagem tem papel fundamental no desempenho produtivo. O experimento é conduzido com a cultivar BRS Quênia, híbrido de Panicum maximum de alta produtividade e qualidade nutricional. A suplementação inclui 5 quilos diários de concentrado proteico por animal, além de silagem de milho como volumoso no período seco.
A pesquisa conta com parceria da Cooperativa Agropecuária Mista Terranova (Coopernova) e da Prefeitura de Sinop. Parte dos bezerros machos é destinada a cooperados para utilização como reprodutores, contribuindo para a melhoria genética dos rebanhos locais. Outros animais são utilizados em estudo conjunto com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), avaliando ganho de peso em sistema de integração lavoura-pecuária (ILP). Resultados preliminares indicam ganho diário de até 1,2 quilo por animal.
Segundo o pesquisador, o modelo demonstra potencial para propriedades de dupla aptidão, permitindo ao produtor ter o leite como atividade principal e aproveitar os machos para a pecuária de corte com boa rentabilidade.
Rentabilidade acima de outras atividades
Uma estimativa feita com base nos primeiros 12 meses do experimento aponta que, em uma área de 12,5 hectares com 30 vacas — sendo 22 em lactação —, a receita média anual por hectare pode chegar a R$ 23.841,80 apenas com a venda de leite. O valor supera a rentabilidade média de atividades como pecuária de corte e até mesmo culturas como soja e milho.
Além da venda de leite, a comercialização de bezerros e vacas de descarte pode ampliar ainda mais a receita, desde que haja controle eficiente dos custos de produção.
Estudo segue até 2027
A pesquisa tem duração prevista de três anos e deve ser concluída no fim de 2027. O objetivo é avaliar o desempenho das vacas girolando 5/8 em sistemas produtivos distintos: pasto a pleno sol e sistema silvipastoril (integração pecuária-floresta).
No primeiro ano, a produtividade média anual não apresentou diferenças significativas entre os sistemas. Contudo, os pesquisadores destacam que ainda é cedo para conclusões definitivas. O estudo também avalia respostas fisiológicas dos animais, como parâmetros bioquímicos, hematológicos e indicadores de estresse térmico, que podem influenciar aspectos reprodutivos e de adaptação ao clima mato-grossense.
Entre as hipóteses a serem respondidas até o final do projeto estão a real capacidade de adaptação do girolando 5/8 às condições de calor do estado e se o espaçamento atual das árvores no sistema silvipastoril é suficiente para melhorar o conforto térmico dos animais.





