Artigos

02/06/2019 08:18

Relembrando um colonizador

Meu caro leitor

A novela “O Rei do Gado” foi, decididamente, uma das melhores produções já feitas pela televisão brasileira. A ponto de ter gerado diversas manifestações de repúdio de herdeiros de Geremias Lunardelli, o lendário colonizador do Norte do Paraná, que ficou conhecido como o “Rei do Café”. Muito parecido com o Geremias da novela.

Com Geremias Lunardelli estive poucas vezes. Uma ou duas, já no final de sua vida. Dele, as referências que tenho me foram passadas por um tipo inesquecível. Chamava-se Ariosto da Riva. Sujeito alto, de olhar marcante, jeito de caboclo urbano. E era. No meio do mato, voando sobre a Floresta Amazônica, sentia-se em casa. Em sua residência da Rua Avanhandava ou no escritório que mantinha perto da Igreja da Consolação, em São Paulo, parecia peixe fora d’água.

Conheci Ariosto no início dos anos 70. Ficamos 10 dias em viagem por Mato Grosso e Pará. Era o tempo do milagre econômico e empresários paulistas convidaram um grupo de jornalistas para conhecer as “maravilhas” da Sudeco – Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste. O programa previa deduções no imposto de renda para quem investisse em projetos agropecuários no Centro-Oeste do Brasil.

Viajamos em um avião Navajo, bimotor confortável de oito lugares e dois pilotos. O avião era da frota da TAM, ao tempo em que o líder dos atuais proprietários, comandante Rolim Amaro, apenas trabalhava para os cotistas da empresa, pecuaristas de São Paulo. Saímos de Congonhas com destino a Cuiabá, a Santarém e a uma dúzia de fazendas localizadas entre essas suas cidades.

Ariosto da Riva, a esse tempo, estava envolvido em dois grandes projetos. A implantação da cidade de Alta Floresta e a viabilização do projeto canavieiro da Fazenda Bodoquena. Antes, trabalhara para Geremias Lunardelli, na colonização de vastas áreas do Norte do Paraná. Fora ali que aprendera as técnicas da colonização, que pretendia adotar em seu grande sonho: a cidade de Alta Floresta.

Alta Floresta fica em plena mata, 790 quilômetros distante de Cuiabá. Era então, naquele início de 1970, apenas uma picada na floresta. E Ariosto me contava como fazer uma cidade: “primeiro, no lombo de burro, você leva uma equipe de mateiros para abrir uma picada e uma pista de pouso. Depois, por avião, vai levando gente, material e construindo uma cidade”. Alta Floresta hoje está pronta. A última informação que tive dela tem aí alguns anos. Ligou-me de lá o repórter Alberto Luchetti, hoje diretor da allTV. Estava hospedado em um paradisíaco hotel na cidade de mais de 50 mil habitantes. Quando Luchetti voltou, marcamos um almoço com Ariosto em São Paulo e pudemos, então, relembrar os primeiros anos de sua epopeia.

Da Fazenda Bodoquena, neste encontro, Ariosto falou pouco. A fazenda fora implantada havia muitos anos por uma dupla de empresários: Walter Moreira Salles e David Rockfeller. Era cortada pelos trilhos da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Atravessei-a, de trem, uma só vez, Tinha, de área, mais do que a Suíça e o comboio demorava duas horas para vencer o percurso interno. Fora adquirida, no início dos anos 70, por um consórcio brasileiro, à frente o Grupo Votorantim de Antônio Ermírio de Moraes, que idealizava, para ela, o maior projeto dentro do Proálcool. Nenhum dos dois deu certo: nem o Proálcool, só viabilidade anos depois, nem a grande usina da Bodoquena.

Ariosto da Riva morreu em 1992, aos 77 anos. Vivia desgostoso desde a perda do filho Ludovico, que elegera como seu sucessor e morto, dois anos antes, em acidente aéreo.

Chico Ornellas


Nativa News

Jose Lucio Junqueira Caldas
Alta Floresta - MT
Fone (66) 9.8412-9214
nativanews@hotmail.com

Redes Sociais

Todos os direitos reservados ao Site Nativa News
Qualquer material não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Crie seu novo site AgenSite
versão Normal Versão Normal Painel Administrativo Painel Administrativo