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09/01/2018 05:19

À sombra das árvores

O visual da sociedade, mesmo em eventos triviais, apresenta nuances intrinsecamente paradigmáticas e interpretativas. Compartilhando o mesmo assunto observa-se semblantes convictos, oposição, feição fatalista, resignada, indiferente. Essa pluralidade de expressões e feições quando sinceras são a essência da nossa humanidade.

Ao longo de um ano passamos por várias experiências alegres e dolorosas, em algum momento fomos rejeitados, nos isolamos, renascemos influentes e enfrentamos os fenômenos da vida cotidiana, sem que nossos destinos tenham sido alterados por forças invisíveis, sobrenaturais e incontroláveis.

Não é uma moda nova observar a vida acontecendo. É meu trabalho trazer o entendimento e interpretação aos episódios da vida, tais como o amor, a intimidade, música, política, consumo, ansiedade, violência, gênero, sexo, relacionamentos.

Georg Simmel, sociólogo alemão, foi uma espécie de precursor desse tipo de sociologia, que depois abandonou, e mais recentemente Zygmunt Bauman encampou o formato de conceber fatos da vida cotidiana como assunto central de seus estudos e tornou-se o guru da filosofia e sociologia que abordam as diversas formas de relações no fluxo e volatilidade da modernidade.

Na minha rua, curta, estreita e de mão única há sete barracas de cachorro quente e uma de churrasquinho, e é impressionante como a vida acontece de forma plena nesse ambiente a céu aberto. Casais namoram, crianças brincam, diálogos rudes, cenas de ciúmes, constrangimento, reconciliação, o beijo e a lua. Não é necessário distribuir questionário para saber o que pensam. Melhor sentar e olhar em volta cultivando a imaginação e buscando o dialógo.

Este final de semana os temas recorrentes foram a estação de ônibus climatizada inaugurada pelo prefeito Emanuel Pinheiro. Não falaram mal e querem uma igual nos bairros onde moram. Sobre a ministra do Trabalho que foi condenada a indenizar empregado em ação onde foi acusada do não pagamento de direito trabalhista, consideram uma vergonha mas dizem que no Brasil é assim mesmo, esse tipo de gente (políticos) não faz leis para cumprir.

Os frequentadores da praça voltam-se uns para os outros e se fecham em confidências enquanto comem. É fato que as aparências nos fornecem impressões sobre as pessoas, mas isso não implica expressar julgamentos, tampouco adentrar na extensão de seus infortúnios.

A atitude humana nos espaços coletivos é vulnerável ao modismo e a superficialidade, sem dúvida, mas é pulsante, indeterminada e espontânea. Em casa, o quadro pode mudar com a voz dos atores de jornais e novelas, no qual mistura-se a rotina e não impulsiona transformação alguma e, como observa Machado de Assis, é neste estado médio que é a condição vulgar da vida humana.

Olga Borges Lustosa é socióloga, cerimonialista pública e escreve exclusivamente neste Blog toda terça-feira - olgaborgeslustosa@gmail.com e www.olgalustosa.com


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